sábado, 23 de outubro de 2010

O Enigma de Kaspar Hauser

 
O enigma de Kaspar Hauser sobre o viés antropológico
 
     Confesso que me interessei pelo filme logo no começo, em virtude da primeira frase que li (o filme era legendado): “Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?”. Impregnado de uma grande curiosidade, resolvi pesquisar um pouco mais a fundo a história de Kaspar Hauser, então descobri que essa frase que vem no prólogo do filme refere-se ao fato da reflexão que remete à influência que a linguagem exerce na percepção da realidade. Assim, percebi algo já explicado pela máxima proferida por Descartes: “Cogitu ergo sum”(penso, logo existo). Ou seja, você só existe à medida que pensa. Ao lerem isso, as pessoas podem ficar confusas e até inferir: mas os animais também não existem? E mesmo assim eles não pensam, não é mesmo? Na verdade, não é bem assim: os animais existem, mas eles não sabem que existem! Ou seja, eles apenas vivem, e, diferentemente dos seres humanos, eles não são capazes de reproduzir seu pensamento por meio da cultura, e, como não possuem uma linguagem, também são incapazes de ter sonhos, sentimentos, emoções...

     Peço perdão aos amantes dos animais, que pensam que os animais são dotados das características citadas acima, mas, assistindo o filme “O Enigma de Kaspar Hauser” eu pude perceber que, aquilo que pensávamos ser próprios de nós mesmos (como a fala, o andar, a religião, os hábitos), aquilo que pensávamos possuir naturalmente, na verdade nos é “empurrado goela abaixo” através da aculturação! Os animais apenas seguem os seus instintos básicos (que são basicamente relacionados à alimentação, às necessidades fisiológicas e à reprodução). Mas, esqueçamos os animais e partamos para o filme: no filme, antes de ser encontrado no centro da cidade de Nuremberg, Kaspar vivia da mesma forma que qualquer animal, apenas alimentando-se e fazendo suas necessidades fisiológicas; tanto que ele não conseguia sequer diferenciar sonho de realidade! E o seu tutor inclusive lhe pergunta como ele tinha passado tantos anos no cativeiro sem sonhar... Ora, a resposta a essa pergunta é trivial: essa ausência de sonho é perfeitamente possível, pois o sonho também é cultural! E sem a linguagem, sem a capacidade de expressão do pensamento, sem todos os aparatos gerados pela cultura o sonho não existe. Assim, se ele não tinha sequer pensamento (pois também não possuía linguagem), como poderia sonhar com algo?

     Assim cheguei a conclusão de que, ao longo do filme, Kaspar é o único personagem que está envolto pelo caráter filosófico propriamente dito, pois é o único que procura  buscar um sentido para sua vida, e mais ainda, para sua existência. Eu o considero também como o personagem mais lógico da trama, visto que percebe que, da mesma forma que existem diversas coisas no mundo, também existem diversos significados para as mesmas. Essa percepção da lógica do Kaspar pode ser vista no seu diálogo com o professor que veio de longe, para testar sua evolução ao longo de dois anos. Ele acaba por encontrar uma resposta a uma pergunta lógica totalmente diversa e inesperada da que era aceita na época, mas o seu professor o recrimina, afirmando que lógica é dedução, e não descrição. Pode-se afirmar portanto  que ele antecipa o pensamento da atualidade (com relação as várias facetas da verdade), ao lançar outra pergunta que resolveria o caso do cidadão que vinha na encruzilhada que ficava entre a cidade da verdade e a da mentira.

     Então, será que, como diz num resumo do filme de autoria desconhecida, aquilo que aprendemos (gramática, lógica matemática, religião, conhecimentos históricos, comportamentos culturais e etc) afeta a nossa capacidade de compreender os fenômenos que nos circundam? Acredito que a resposta a essa pergunta seja afirmativa e que essa afetação ocorre em virtude de limitarmos o significado de uma ideia ao associarmos tal ideia a uma única palavra ou imagem. Assim, “as idéias passam a expressar só o que as palavras e imagens conseguem expressar, e não atingem toda a sua abrangência original (antes de serem aprisionadas por palavras e imagens)”. Dessa forma, pode-se inferir que Kaspar, em virtude de seu confinamento prolongado, associado a sua falta de comunicação com qualquer forma de sociedade, tem uma percepção mais aguçada da realidade, justamente pelo fato de ele não ter a limitação provocada pela associação entre linguagem, imagem e pensamento. Talvez daí o diretor do filme tenha tirado a frase inicial, que eu já mencionei. Talvez, o Kaspar Hauser possa realmente ouvir os sons os quais nós não somos capazes de escutar.
 
     As outras características do personagem principal dessa história que me levam a crer que o selvagem é bom, e o civilizado é ruim são as apontadas pela própria população da cidade: ele era sempre gentil, carinhoso e ingênuo, não machucava sequer o menor inseto, e, quando começou a demonstrar reações, parecia uma criança ao ver o mundo pela primeira vez.
 
     Intrigado ainda mais com a história de Kaspar, resolvi buscar outras fontes de pesquisa, e descobri, no escriba café, um arquivo interessante que retratava a história de Kaspar, o que me levou a crer que no filme o autor ameniza o real drama de Kaspar. Então através do podcast (em forma de áudio book), de Christian Gurtner, descobri que, na carta endereçada ao capitão de cavalaria, estava escrito que, se o capitão não ficasse com ele, deveria fuzilá-lo ou enforcá-lo. Descobri também que havia ainda outra carta, supostamente enviada pela mãe legítima de Kaspar Hauser, destinada ao remetente da primeira carta e datada de 1812 (16 anos antes da primeira carta), que dizia que o nome do menino era Kaspar e seu sobrenome pouco importava, podendo o destinatário da carta dar- lhe qualquer um. A carta dizia também que o pai de Kaspar foi um soldado da cavalaria. E por fim pedia que quando o menino fizesse 17 anos, deveria ser levado para Nuremberg, para o sexto regimento de cavalaria (a mesma onde o pai dele havia servido). Eu achei que as engrenagens estavam finalmente se encaixando, e que eu veria o mistério de Kaspar ser decifrado, entretanto, qual não foi minha surpresa ao descobrir que foi feita uma análise dessas duas cartas e que essa análise pela “perícia”, em vez de melhorar a situação para a resolução do caso, acabou por aumentar ainda mais o mistério de Kaspar: as cartas, segundo a análise, foram escritas pela mesma mão, utilizando o mesmo tipo de papel e a mesma tinta. Ou seja, as pessoas estavam num beco sem saída... Elas precisavam ensinar Kaspar a ler e a falar, pois ele talvez fosse a única chance para resolver seu próprio mistério...

     Prosseguindo minhas investigações, o caso acabava por me intrigar ainda mais, pois havia algo de mais extraordinário ainda em Kaspar: sua sensibilidade à eletricidade e aos metais. Ele sentia muita dor durante uma tempestade de raios, devido a eletricidade estática no ar, e, ao segurar um magneto, ele sabia com precisão qual era o pólo negativo e o pólo positivo e dizia que o lado positivo empurrava ele, ao passo que o lado negativo fazia algo sair do seu corpo. Conseguia também diferenciar os pólos através de cores que via em cada um, coisa impossível para uma “pessoa normal”.
 
     O fato é que domingo, 17 de outubro de 1829: um homem de capa atacou Kaspar com uma facada em seu peito. Ele sobreviveu a esse primeiro atentado e disse que aquele que o atacou foi o mesmo que o havia prendido no passado (disse isso através de frases intrigantes enquanto dormia: “porque você matou eu?”, “eu nunca fazer nada pra você”, “não me mata”, “eu implorar pra você não matar eu”, “você me matou antes de eu aprender o que é a vida”, “você precisa dizer a eu porque me prendeu”. E, para completar, ao acordar, confirmou que a voz do homem era a mesma que ele ouviu durante a época de encarceramento).
 
     Em 14 de Dezembro de 1832 Kaspar morre, aos 21 anos de idade, assassinado. Ele foi enterrado atrás da igreja, e em sua sepultura foi escrito: “Aqui jaz, Kaspar Hauser, enigma de seu tempo. Seu nascimento é desconhecido e sua morte, oculta”.
 
     As últimas palavras de Kaspar Hauser foram: “muitos gatos são a morte para o rato. Cansado. Muito cansado. Ainda tenho que fazer uma longa viagem...”. Essas palavras seriam mais uma peça desse imenso quebra-cabeça? A história de Kaspar Hauser terminaria assim? Ele seria apenas uma criança que sofreu maus tratos e apresentava peculiaridades devido ao cárcere? Não! A história de Kaspar não termina assim! Sua vida pode ter terminado, mas sua história jamais terminará; e, ao longo dos anos, a história de Kaspar Hauser, aquele vindo não se sabe de onde, crescerá cada vez mais, intrigando gerações e gerações, que, muito provavelmente, jamais chegarão a um consenso sobre a resposta à pergunta chave que se faz sobre esse caso: “Quem foi Kaspar Hauser?”. Mas talvez seja melhor assim, talvez Kaspar nos ensine muito mais se a verdade sobre sua história não for revelada. Talvez, esse clássico universal que é a história de Hauser, aquele que foi incompreendido pela sociedade, aquele visto como um anormal, cuja condição foi explicada por uma anormalidade em seu cérebro, talvez ele continue mexendo com a cabeça de todos os que se depararem com sua história desde sempre e por todo sempre. Mas os bons clássicos são assim mesmo: não desaparecem nunca.
 
     Por fim, deixo claro que, no filme, nota-se claramente o quão difícil é o processo de aculturação (que muitos chamam de humanização), atrelado a alteridade, no qual o individuo sente-se perdido em meio ao choque de informações e de preceitos que recebe. E concordo com Maria Clara Lopes Saboya, quando esta diz, à respeito do processo de humanização:

“Através desse processo, o indivíduo se integra no grupo em que nasceu, assimilando o conjunto de hábitos e costumes característicos desse grupo. Participando da vida em sociedade, aprendendo suas normas, valores e costumes, o indivíduo está se socializando, reprimindo suas características instintivas e animais e desenvolvendo as sociais e culturais, fazendo, assim, a ‘passagem da natureza para a cultura’, aprendendo a ver com os ‘óculos sociais’,  tornando-se, como nos disse C. Dickens, ‘um animal de costumes’". (SABOYA, Maria Clara Lopes).

     Assim, o que torna o “homem animal” em um individuo social é justamente esse processo de aculturação, e, sem o mesmo, seriamos todos como Kaspar Hauser: um ser como outro qualquer. Mas será que não seriamos melhores como estávamos antes? Nunca se sabe, mas, provavelmente, na época do surgimento da sociedade, as coisas já estavam organizadas de tal modo que não haveria mais retorno. O que importa realmente é continuar vivendo, pois, enquanto vivos, poderemos pensar e encontrar respostas. Quem sobreviver, verá.

3 comentários:

  1. Este comentário foi removido pelo autor.

    ResponderExcluir
  2. “Vocês não ouvem os assustadores gritos ao nosso redor que habitualmente chamamos de silêncio?”.
    A frase também me chamou a atenção e me prendeu a atençao durante todo o filme. Foi numa aula de antropologia, curso de comunicação social. Gostei muito da sua análise. O ser humano é um bicho que será estudado durante toda sua vida...quanto mais se sabe sobre o bicho, mais se tem a certeza de nada saber.Um abraço!!!

    ResponderExcluir
  3. Na minha opinião oque se pode ver nesse magnifico filme e a estupidez humana e a estreiteza da sociedade .E um banho de sentimentos e uma revelação a respeito do humano ou umano .

    ResponderExcluir