sexta-feira, 29 de outubro de 2010

O último grande herói - Silvio Luzardo

Ayrton Senna da Silva - Ayrton Senna do Brasil.
(São Paulo, 21 de março de 1960 — Bolonha, 1 de maio de 1994)

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Fiquei com saudades de Ayrton Senna (embora devido a minha curta idade eu não tenha tido o prazer de vê-lo correr, excetuando em videos do youtube), então resolvi postar essa crônica em sua homenagem, escrita por Silvio Luzardo, em 02 de maio de 1994:

O ÚLTIMO GRANDE HERÓI

     Entre o céu e a terra, desde remotas épocas, os homens evocam seus guerreiros: aquele dominou a fera, outro deteve o fogo, este superou limites. Os destemidos romperam barreiras e se tornaram alados no coração do gentio. Recebram louros, sobre o chão onde pisavam haviam flores e ornamentos. As flâmulas e os estandartes traduziam o festejo e a honra, o orgulho e a admirição. Uma tribo, um povo, uma nação devem ter seus heróis como uma exigência da sua grandeza e do seu testemunho diante do universo.

     Nós, brasileiros, tivemos até o último domingo, um desses indomáveis heróis modernos. Tão audaz que se tornou um cidadão do mundo! Um guerreiro ágil como o vento, que fez da sua profissão um caudal de emoções, transformando os desafios em vitórias marcantes. Um destemido que diante do imponderavel sempre superou a sua ansiedade com exemplar dinâmica, derrubando marcas e alcançando êxitos. Nada ficou inerte a sua passagem. Ninguém conseguiu ignorar aquele raio luminoso que cruzava as pistas. Muitos poucos não guardaram o seu nome. Na verdade, em pouco mais de uma década, aquele rapaz conseguiu envergar o uniforme uníssono dos lauréis e recebeu o abraço gigantesco de um povo que carecia de estirpes e tenazes personalidades públicas. Uma simbiose franca, um amálgama imenso e um circulo afetivo criaram essa atmosfera íntima que explica o fascínio da sua gente, envolvendo-o com as mais serenas águas da contemplação. Ele era, simplesmente, um dos nossos: "ô home bão!", "um tchê, bagual, no más!", "oxente, que cabra da peste!", "meu ermão mermo!", "o trem bão, uai!", na mais pura linuagem da identidade e do imaginário popular.

     De repente, a tênue linha que separa a vida da morte rompeu-se. Inapelável como é, não nos permitiu sequer o direito de escudá-lo, de protegê-lo, de envolvê-lo na fortaleza do incomensurável. Ficamos inertes, esperando que a nossa força interior tivesse a capacidade de alterar o traçado e deter a tragédia, inóspita visita que o envolveu com o seu manto negro. Éramos, naquele instante, como guerreiros totalmente desarmados diante do infortúnio. Nosso herói perecia e nossas armas de socorro eram ineficazes. Queríamos acenar nossas bandeiras, mas elas estavam derreadas, queríamos impulsionar o aceno, mas ele estava abatido.

     Não mais o ruído do confronto com o perigo. Não mais a vontade de ultrapassar os riscos. Não mais o sorriso altaneiro. Não mais o aceno eloquente. Não mais a flâmula a tremular sobre territórios conquistados. Não mais a sua grata imagem a nos deixar eufóricos com suas investidas e destemores. Não mais o brilho  inconfundível do último herói a reanimar sua gente... Eis o impacto de nossa perda irreparável.

     Vai, Ayrton, conquistar o podium da eternidade que por mérito mereces. Culminar o tempo com a tua marca indelével. Vai, mexes com a grandeza do espaço sem limites, onde poderás registrar tua coragem invulgar nos anais da luz e da imensidão. Mas, por favor, continues acenando de onde estiveres, para o teu povo e para os teus irmãos, que, embebidos nesta alucinante despedida, permanecem em vigília, nesta hora em que a saudade exaure nossas forças e deprime o nosso presente.



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